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  • Transcendência

    Se numa manhã fria de junho
    o orvalho se fizesse gelo e pintasse de branco todo o jardim,
    se numa manhã fria de junho
    o meu despertar acontecesse com o dia ainda a dormir,
    nada disso me tiraria o sorriso por poder acordar ao teu lado.

    Quando fecho os olhos nos vejo dançando,
    tão juntos que somos um.
    Quando fecho os olhos
    teu sorriso me vem à mente
    e invoca o meu, feito bobo.

    Por ti tenho vontades não declaráveis,
    tenho desejos incontroláveis.
    Meus demônios não cabem mais em meu peito,
    contigo me veio a paz.

    Quando deito,
    meus sonhos são lúcidos,
    translúcidos,
    mas já foram vazios.

    Se há transcendência em apenas ser,
    serei contigo,
    meu amor.

  • Retalhos

    Somos feitos de retalhos
    De entulho
    De bagaço

    Somos todos cheios de galhos
    Ramificando a longos passos

    Somos o que o outro nos permite ser
    Somos nós mesmos sem saber

    Somos espelhos mútuos
    Refletindo sem querer

    Se aqui tu matas outro
    Quem há de morrer?

  • Imortalidade

    Para esvaziar o meu peito,
    eu escrevo.
    Para controlar minha mente,
    eu escrevo.
    Para conheceres retalhos de mim,
    eu escrevo.
    Para encontrar novas formas de dizer “eu te amo”,
    eu escrevo.
    Para absorver novos saberes,
    eu escrevo.
    Para compartilhar minhas ideias,
    eu escrevo.
    Para que minha existência não seja em vão,
    eu escrevo.
    Para que eu jamais morra,
    eu escrevo.

  • Quanta devoção vazia
    Escorrendo em tuas mãos
    Junto com o sangue
    De tantos outros irmãos

    Que santa devoção querias
    Que o mundo visse de antemão
    Sem saber que ardia em teus olhos
    Um ódio sem solução

    Se a fé que te move
    Ao teu próximo dissolve
    Não é de fé que tu precisas
    E sim de um coração

  • Um pesar

    Nem tudo o que se escreve serve
    Um pouco é lixo
    Um pouco é neve

    Derrete num toque
    Entorpece os dedos
    Decepciona

    Diz tudo
    Diz coisa alguma
    Aprisiona

    Você boceja
    Chora
    Ri

    No fim das contas
    O que foi escrito
    O que foi dito
    Razão não há

    Diz nada
    Diz coisa alguma
    A quem se aprofunda
    Em seu versar

  • Eu

    Aqui é um eu-outro,
    Não meu costumeiro eu.
    Agora quem se expressa
    Não é o eu-corpo.
    No fim das contas, contudo,
    Aquilo que aqui te mostro,
    Dentro de mim floresceu.

  • O homem e a esfinge

    I

    Peço-te licença, senhora
    Pois sois tu quem me devoras
    Por não profundamente a conhecer.

    Além do Nilo,
    O que fi-lo
    Foi encher-me de saber.

    Se não te parece suficiente
    Haja mente
    Para a ti encantar!

    Das tuas garras, de repente,
    Sem demora
    Hei de me libertar.

    Decifrar-te
    Como a arte
    É tarefa não da mente
    Mas do coração.

    Digo então que me releves
    Pois seu controle
    Não está em minhas mãos.

    II

    Com teus saberes, peregrino
    Pões-me à beira de um abismo

    Se tu soubesses
    Do mundo um pouco
    Impossível seria te enganar

    Com astúcia
    Pedes tu minha clemência
    Mas mal sabes a aparência
    Da minha ira a despertar

    Se não me decifras
    A ti devoro
    Se me enganas
    Não te ignoro

    Pensas tu
    Que me convences
    Que este amor
    Que tu não sentes
    De tola me fará?

    Então te digo,
    Pródigo andarilho
    Que tua vida,
    Com minhas garras
    vou ceifar.

  • Arara tua

    Se na liquidez do amor
    Nos fazemos peixes
    Por ti eu nado contra a correnteza
    Se na liquidez do mundo
    Estivermos juntos
    A ti eu me misturo e nos tornamos um

    Como um casal de araras
    Voamos alto e juntos
    Para sempre contigo quero estar
    Se a mim confias parte da tua vida
    A ti confio todo o meu coração

    Caminhar contigo
    Meu melhor amigo
    É ter a certeza de estar feliz
    Que o “para sempre”
    Para sempre dure
    Até um breve cochilo sem despertar

    Se já no fim da vida
    Eu estiver contigo
    Ela terá sido
    A mais bela história a se contar

  • Escuridão

    Como uma bolha de vidro
    Sempre fui tratado
    Cheio de medos, receios e cuidado
    Viam em mim menos do que eu vira em vida
    O que fiz dela eu?
    Penso agora que estou de partida

    Quantos eus deixei de conhecer,
    Se numa caixa hermética
    Tantos tus me fizeram permanecer?

    Foram anos na escuridão
    Não sendo mais do que um breve borrão
    Numa vida nada intensa e cheia de não-me-toques
    O que espero eu, na hora da boa morte?

    Em teus braços me ponho a dormir
    Tenho um desejo antes de partir
    Que aqueles que enxergam vejam além do véu e da escuridão
    Impostos a nós por esta condição

    Se a vida já lhes soa cheia de obstáculos
    Quem dirá a nós,
    Tantos Hércules desacreditados

    Garanta também a mim
    O seu direito de ir e vir
    De celebrar a vida
    E com igualdade coexistir

    Adormecer no escuro
    É quase um milagre
    Abrem-se os olhos da alma e do coração
    Tão breve quanto o mais breve borrão
    A morte deve ser assim
    Uma paz inebriante e sem fim