Escuridão

Como uma bolha de vidro
Sempre fui tratado
Cheio de medos, receios e cuidado
Viam em mim menos do que eu vira em vida
O que fiz dela eu?
Penso agora que estou de partida

Quantos eus deixei de conhecer,
Se numa caixa hermética
Tantos tus me fizeram permanecer?

Foram anos na escuridão
Não sendo mais do que um breve borrão
Numa vida nada intensa e cheia de não-me-toques
O que espero eu, na hora da boa morte?

Em teus braços me ponho a dormir
Tenho um desejo antes de partir
Que aqueles que enxergam vejam além do véu e da escuridão
Impostos a nós por esta condição

Se a vida já lhes soa cheia de obstáculos
Quem dirá a nós,
Tantos Hércules desacreditados

Garanta também a mim
O seu direito de ir e vir
De celebrar a vida
E com igualdade coexistir

Adormecer no escuro
É quase um milagre
Abrem-se os olhos da alma e do coração
Tão breve quanto o mais breve borrão
A morte deve ser assim
Uma paz inebriante e sem fim

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