Autor: Vitor Souza

  • 10 anos

    Eu estava morrendo de medo de chegar neste dia sem saber o que dizer. De ficar sem palavras com tanta coisa pra falar. Eu lembro da primeira vez que te vi, mas lembro que primeiro eu ouvi o barulhinho da brita enquanto tu entravas na academia para buscar a tua irmã. Ouvi e virei. Ali eu já sabia, éramos nós. A primeira vez que eu te vi, eu já sabia que era um reencontro. Dali resultou apenas um cumprimento protocolar e um hiato de alguns anos até nos vermos novamente. A vida seguiu, os ventos sopraram e nos separaram, rodopiamos e rodopiamos e nos esbarramos de novo, lá estávamos nós. Foi um mês bastante intenso, mas uma rajada de vento repentina nos separou novamente. E rodopiamos, rodopiamos e nos esbarramos em outras folhas. Rodopiamos mais um pouco e, como não poderia deixar de ser para dois espíritos que compartilham tantas existências, nos esbarramos de novo e, mais vividos, entendemos que era caminhando juntos que a experiência dessa vida seria a mais maravilhosa possível. E hoje iniciamos a nossa segunda década nessa caminhada, de muitas que se seguirão. Obrigado por esses dez anos incríveis, obrigado por escolher todos os dias caminhar comigo. Te amo.

    Para o Paulo, meu marido e companheiro de tantas vidas.

  • Arara tua

    Se na liquidez do amor
    Nos fizermos peixes
    Por ti eu nado contra a correnteza
    Se na liquidez do mundo
    Estivermos juntos
    Nos misturamos e nos tornamos um

    Mas como um casal de araras
    Voamos alto e juntos
    Como elas, para sempre contigo quero estar
    Se a mim confias parte da tua vida
    Eu te confio todo o meu coração

    Caminhar contigo
    Meu melhor amigo
    É ter a certeza de estar feliz
    Que o “para sempre”
    Para sempre dure
    Até um breve cochilo sem despertar

    Se já no fim da vida
    Eu estiver contigo
    Ela terá sido
    A mais bela história a se contar

    Arara tua é o segundo da série Poemas Revisitados, onde refaço, ou ajusto, em maior ou menor grau, alguns dos meus poemas anteriores. Este foi um dos primeiros poemas que escrevi e precisava de uma reforma. Foi escrito para meu marido, com quem hoje completo 10 anos. Sua primeira versão tem o mesmo título.

    Vitor Souza

  • Marques Rebelo

    Fiquei parado de boca aberta fitando a página que acabara de ler, completamente cego de olhos abertos. Havia sido meu primeiro contato com Marques Rebelo. Havia três microcrônicas naquela página, virando-a havia outras vinte. Ainda bem.

  • Café

    O café vai entrando, esquentando a alma, acordando o tempo, calçando o dia para que ele comece. O café, como droga que é, enquanto entra empurra para fora a inibição e com ela o amor. Tal qual numa balada, onde outros cafés despertam sentimentos e desejos, provavelmente inexistentes em essência, é no despertar matinal dos sentidos, regados enfim a café, que o verdadeiro amor vai fluindo, tomando espaço, a partir das vísceras, subindo ao peito, abraçando e esquentando o coração, fazendo-o bater mais forte para dar conta da respiração mais intensa, um arrepio na nuca, e então saem pelas pontas dos dedos aquela mensagem de eu te amo. Endereçada sempre à verdade.

  • Um atrevimento:

    Quem gosta de ler não morre só. – Ariano Suassuna
    E quem gosta de escrever não morre nunca. – Um atrevido qualquer.

  • Eu nunca escrevi sobre o sol

    E, que eu me lembre, nem sob o sol. Já escrevi sobre a morte, já escrevi sobre o amor, já brinquei com o sexo, vivo falando de mim, amo falar sobre escrever, mas nunca falei sobre o sol. Ignorei totalmente a imagem mais bonita gravada na minha memória, que é um pôr do sol no Uruguai em boa companhia. Foi um daqueles que se aplaudem em pé. Esqueci que me sinto abraçado por ele quando ele aparece nos dias frios de inverno, e que no verão ele não sabe brincar. Me peguei pensando que meus textos têm um tom acinzentado, chuvoso, nublado, alguns até têm a cor e o calor de um abajur aceso iluminando levemente o escuro. Mas eu não tenho textos solares. Percebi que só uso preto, que choro fácil, que sou meio estúpido, que tenho uma casca que teci em torno de mim desde muito cedo. Já tem cerca de uma década que venho desfiando, fio a fio, essa casca que construí e que acabou virando um casulo. Tem muito ainda a desfiar, mas já consigo ver uma asa colorida se atrevendo a querer sair. Essa casca não deixou todo o sol chegar em mim, mas já sinto ele me esquentando de novo. Agora o sol também faz parte do que escrevo. E eu ainda não escrevi sobre o sol.

  • A arte, assim como o amor, deve ser extravasada, jogada pra fora do peito sem medo. Ou com medo mesmo. E o que não me falta é medo, amor e arte.

  • A forma mais bonita de poesia é a música. E justo nela, sou incapaz.

  • São exatamente 16:30 e, de repente, sobe uma notificação no meu celular e no meu computador, onde estou trabalhando. De tão curta a frase, não houve sequer necessidade de vocalização interna, a leitura é instantânea no primeiro olhar. Te amo! Escreveu ele. Uma tropeçada do coração, um sorrisinho no canto da boca e um calor nas bochechas denunciam silenciosamente que é recíproco. Nem foi o primeiro eu te amo do dia. O de todas as manhãs é sagrado. Será que é fogo de início de relação? Não 10 anos depois.

    Uma microcrônica que acabou de me acontecer.

    Vitor Souza

  • Fôlego

    Queria saber escrever. E eu até acho que escrevo razoavelmente. Faço uns poemas aqui e ali, mas parei por um tempo. Um professor de política comentou certa vez que deve-se cuidar com aqueles que dizem escrever poesia. Geralmente são péssimas. Fiquei com medo, parei. Mas elas só vão deixar de ser péssimas se eu continuar escrevendo. Então escrevi, aqui e ali. Quando é muito necessário, dou um tiro e escrevo algo um pouco maior, como o discurso que fiz como orador da turma quando me formei em educação física, minha primeira faculdade. O que me falta é fôlego. Assim como meu corpo se comporta melhor num tiro de 100 metros, onde o oxigênio não é a estrela da festa, meu cérebro também não consegue se deter por muito tempo num mesmo esforço. Só em pensar em algo que leve mais de 5 minutos, o ar falta e o corpo e a mente amolecem. O combustível vai rareando, o cansaço chega e, arfando, a escrita vai se dissipando como fumaça cuja causa já não existe mais. Talvez por isso eu escreva mais poemas, apesar de ser melhor leitor de prosa. Nem para contos e crônicas eu tenho conseguido ficar firme. Eu nado, nado (pouco) e morro na praia, que estava logo ali, à vista, a poucas braçadas. Meus textos não terminados se acumulam no computador. Às vezes são visitados, mas, longe daquele tiro inicial, já não têm a mesma essência, já estão cansados. Este próprio texto que estou escrevendo e você lendo, corre o risco de morrer antes de nascer. Já estou sentindo o pulmão pesado, o ar arrastado, o coração acelerado. Acelerado tentando manter a oxigenação do meu cérebro, mas também pela ansiedade da iminência do fim, do ponto final, que parece cada vez mais longe e borrado. Uma distância curta, mas inalcançável. Será que um dia vou chegar ali, nesse ponto que me obriga a terminar aqui? Agora me obrigo a uma última frase, para, num último golpe de ar, poder finalizar com o tão esperado ponto final.

    Minha primeira crônica! Comecei a praticar nos últimos dias, devo ficar um tempo nesse gênero.

    Vitor Souza