E, que eu me lembre, nem sob o sol. Já escrevi sobre a morte, já escrevi sobre o amor, já brinquei com o sexo, vivo falando de mim, amo falar sobre escrever, mas nunca falei sobre o sol. Ignorei totalmente a imagem mais bonita gravada na minha memória, que é um pôr do sol no Uruguai em boa companhia. Foi um daqueles que se aplaudem em pé. Esqueci que me sinto abraçado por ele quando ele aparece nos dias frios de inverno, e que no verão ele não sabe brincar. Me peguei pensando que meus textos têm um tom acinzentado, chuvoso, nublado, alguns até têm a cor e o calor de um abajur aceso iluminando levemente o escuro. Mas eu não tenho textos solares. Percebi que só uso preto, que choro fácil, que sou meio estúpido, que tenho uma casca que teci em torno de mim desde muito cedo. Já tem cerca de uma década que venho desfiando, fio a fio, essa casca que construí e que acabou virando um casulo. Tem muito ainda a desfiar, mas já consigo ver uma asa colorida se atrevendo a querer sair. Essa casca não deixou todo o sol chegar em mim, mas já sinto ele me esquentando de novo. Agora o sol também faz parte do que escrevo. E eu ainda não escrevi sobre o sol.
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