Depende em qual queixo
seu suco escorreu
No dele
ou no meu
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Eu não escrevo poesias
Não, eu não escrevo poesias,
são elas que me perseguem.
Quando dou por mim,
lá estão elas, faceiras,
me olhando.
No banho,
no café que tomo,
na música que ouço…
Eu não escrevo poesias,
deixo que elas,
por conta própria,
transbordem pelos meus dedos.
Não escrevo poesias,
Apenas dou o espaço que elas precisam
e não as calo. -
Para ser poeta
Com quantas poesias
podemos nos chamar poetas?
Penso que numa única vida
não há tempo suficiente
para que nos tornemos tão puros
para sermos poetas.
Fazemos no máximo uns rascunhos,
que devem ser aperfeiçoados
por existências a fio.
Os grandes?
Ah, estes não são humanos,
são a poesia em si. -
Onde está a poesia?
Às vezes, a poesia está no que vemos
e não no que dizemos.
Às vezes, a poesia está no toque da pele
com outra pele.
Às vezes, a poesia está na brisa que beija nosso rosto.
Pode ser que a poesia
se esconda naqueles olhos.
Pode ser que a poesia
esteja no silêncio
Ou no luar
Ou no mar
A poesia está naquilo que sentimos
Seja ao adormecer,
Seja ao despertar. -
Retalhos
Somos feitos de retalhos
De entulho
De bagaço
Somos todos cheios de galhos
Ramificando a longos passos
Somos o que o outro nos permite ser
Somos nós mesmos sem saber
Somos espelhos mútuos
Refletindo sem querer
Se aqui tu matas outro
Quem há de morrer? -
Imortalidade
Para esvaziar o meu peito,
eu escrevo.
Para controlar minha mente,
eu escrevo.
Para conheceres retalhos de mim,
eu escrevo.
Para encontrar novas formas de dizer “eu te amo”,
eu escrevo.
Para absorver novos saberes,
eu escrevo.
Para compartilhar minhas ideias,
eu escrevo.
Para que minha existência não seja em vão,
eu escrevo.
Para que eu jamais morra,
eu escrevo. -
Fé
Quanta devoção vazia
Escorrendo em tuas mãos
Junto com o sangue
De tantos outros irmãos
Que santa devoção querias
Que o mundo visse de antemão
Sem saber que ardia em teus olhos
Um ódio sem solução
Se a fé que te move
Ao teu próximo dissolve
Não é de fé que tu precisas
E sim de um coração -
Um pesar
Nem tudo o que se escreve serve
Um pouco é lixo
Um pouco é neveDerrete num toque
Entorpece os dedos
DecepcionaDiz tudo
Diz coisa alguma
AprisionaVocê boceja
Chora
RiNo fim das contas
O que foi escrito
O que foi dito
Razão não háDiz nada
Diz coisa alguma
A quem se aprofunda
Em seu versar