Aqui é um eu-outro,
Não meu costumeiro eu.
Agora quem se expressa
Não é o eu-corpo.
No fim das contas, contudo,
Aquilo que aqui te mostro,
Dentro de mim floresceu.
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Eu
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O homem e a esfinge
I
Peço-te licença, senhora
Pois sois tu quem me devoras
Por não profundamente a conhecer.
Além do Nilo,
O que fi-lo
Foi encher-me de saber.
Se não te parece suficiente
Haja mente
Para a ti encantar!
Das tuas garras, de repente,
Sem demora
Hei de me libertar.
Decifrar-te
Como a arte
É tarefa não da mente
Mas do coração.
Digo então que me releves
Pois seu controle
Não está em minhas mãos.
II
Com teus saberes, peregrino
Pões-me à beira de um abismo
Se tu soubesses
Do mundo um pouco
Impossível seria te enganar
Com astúcia
Pedes tu minha clemência
Mas mal sabes a aparência
Da minha ira a despertar
Se não me decifras
A ti devoro
Se me enganas
Não te ignoro
Pensas tu
Que me convences
Que este amor
Que tu não sentes
De tola me fará?
Então te digo,
Pródigo andarilho
Que tua vida,
Com minhas garras
vou ceifar. -
Arara tua
Se na liquidez do amor
Nos fazemos peixes
Por ti eu nado contra a correnteza
Se na liquidez do mundo
Estivermos juntos
A ti eu me misturo e nos tornamos umComo um casal de araras
Voamos alto e juntos
Para sempre contigo quero estar
Se a mim confias parte da tua vida
A ti confio todo o meu coraçãoCaminhar contigo
Meu melhor amigo
É ter a certeza de estar feliz
Que o “para sempre”
Para sempre dure
Até um breve cochilo sem despertarSe já no fim da vida
Eu estiver contigo
Ela terá sido
A mais bela história a se contar -
Escuridão
Como uma bolha de vidro
Sempre fui tratado
Cheio de medos, receios e cuidado
Viam em mim menos do que eu vira em vida
O que fiz dela eu?
Penso agora que estou de partidaQuantos eus deixei de conhecer,
Se numa caixa hermética
Tantos tus me fizeram permanecer?Foram anos na escuridão
Não sendo mais do que um breve borrão
Numa vida nada intensa e cheia de não-me-toques
O que espero eu, na hora da boa morte?Em teus braços me ponho a dormir
Tenho um desejo antes de partir
Que aqueles que enxergam vejam além do véu e da escuridão
Impostos a nós por esta condiçãoSe a vida já lhes soa cheia de obstáculos
Quem dirá a nós,
Tantos Hércules desacreditadosGaranta também a mim
O seu direito de ir e vir
De celebrar a vida
E com igualdade coexistirAdormecer no escuro
É quase um milagre
Abrem-se os olhos da alma e do coração
Tão breve quanto o mais breve borrão
A morte deve ser assim
Uma paz inebriante e sem fim