Aqui eu escrevo algumas arbitrariedades. Escrevo o que me vem à mente, o que me sufoca o peito, o que me ocupa as noites de insônia. Muito, senão tudo, do que tem aqui escrito seriam, em outros tempos, papéis amassados jogados num canto, sem nenhum valor. Por isso, é bom que se saiba: não estranhe tantos textos de qualidade tortuosa, é um laboratório. Entre e fique à vontade, mas tire os sapatos.

Vitor Souza

  • Gozo

    Eu gosto é de metapoesia
    Da palavra dita e escondida
    De fazer de mim, poesia

    Com as palavras eu me deito
    Me deleito
    E aí começo a versar

    Num entrelaçar de toques
    Numa confusão de sons
    Me embriago com seus cheiros
    Conheço seus sabores

    Com as palavras eu brinco
    Eu troco
    Eu tiro
    Eu coloco

    Até ela e eu
    A poesia e eu
    Perdermos qualquer vergonha
    E nos encharcarmos
    Num último verso

    Gozo inaugura a série Poemas Revisitados, onde refaço, ou ajusto, em maior ou menor grau, alguns dos meus poemas anteriores. Este, em particular, foi completamente retorcido, inclusive com alteração do título. Sua primeira versão é: Sobre o que escrevo.

    Vitor Souza

  • Fui buscar num livro
    o que era poesia.
    Mas nem precisei abrir.
    Olhando suas curvas e retas,
    vi que um livro
    é poesia em si.

  • Uma maçã mordida faz poesia?

    Depende em qual queixo
    seu suco escorreu
    No dele
    ou no meu

  • Eu vejo
    Eu sinto
    Eu poetizo
    Eu, lírico

  • Num poema
    Me desenlaço
    Desembaraço
    Me perco
    Me faço

  • Eu não escrevo poesias

    Não, eu não escrevo poesias,
    são elas que me perseguem.

    Quando dou por mim,
    lá estão elas, faceiras,
    me olhando.

    No banho,
    no café que tomo,
    na música que ouço…

    Eu não escrevo poesias,
    deixo que elas,
    por conta própria,
    transbordem pelos meus dedos.

    Não escrevo poesias,
    Apenas dou o espaço que elas precisam
    e não as calo.

  • Para ser poeta

    Com quantas poesias
    podemos nos chamar poetas?
    Penso que numa única vida
    não há tempo suficiente
    para que nos tornemos tão puros
    para sermos poetas.
    Fazemos no máximo uns rascunhos,
    que devem ser aperfeiçoados
    por existências a fio.
    Os grandes?
    Ah, estes não são humanos,
    são a poesia em si.

  • Onde está a poesia?

    Às vezes, a poesia está no que vemos
    e não no que dizemos.
    Às vezes, a poesia está no toque da pele
    com outra pele.
    Às vezes, a poesia está na brisa que beija nosso rosto.

    Pode ser que a poesia
    se esconda naqueles olhos.
    Pode ser que a poesia
    esteja no silêncio
    Ou no luar
    Ou no mar

    A poesia está naquilo que sentimos
    Seja ao adormecer,
    Seja ao despertar.

  • Retalhos

    Somos feitos de retalhos
    De entulho
    De bagaço

    Somos todos cheios de galhos
    Ramificando a longos passos

    Somos o que o outro nos permite ser
    Somos nós mesmos sem saber

    Somos espelhos mútuos
    Refletindo sem querer

    Se aqui tu matas outro
    Quem há de morrer?

  • Imortalidade

    Para esvaziar o meu peito,
    eu escrevo.
    Para controlar minha mente,
    eu escrevo.
    Para conheceres retalhos de mim,
    eu escrevo.
    Para encontrar novas formas de dizer “eu te amo”,
    eu escrevo.
    Para absorver novos saberes,
    eu escrevo.
    Para compartilhar minhas ideias,
    eu escrevo.
    Para que minha existência não seja em vão,
    eu escrevo.
    Para que eu jamais morra,
    eu escrevo.